24/07/2010 16:07
PT e FARC: por que não?
Antes de mais nada, peço desculpas pela minha ausência nos últimos dias. Uma viagem, que era para durar poucos dias, se estendeu. A princípio, a previsão passou de 5 para 10 dias. Depois, para 20 dias, um mês… e hoje ainda estou no meio dessa viagem que pode acabar quando alcançar seu segundo mês, ou que pode se transfigurar em uma mudança definitiva cidade. Junto a isso, ainda tive algumas reuniões, compromissos e eventos pelos lugares por onde passei. Me esforcei para me manter atualizado, lendo notícias e opiniões diariamente, mas me faltou tempo para escrever – e por isso lhes peço desculpas.
De qualquer maneira, o fato mais comentado nos noticiários dessa última semana – dentre aqueles que cabem na proposta desse blog – foi a declaração do candidato à vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB), Indio da Costa (DEM): «Todo mundo sabe que o PT é ligado às FARC, ligado ao narcotráfico e ligado ao que há de pior». Já li muito sobre o que rebateu a oposição e sobre o que disseram os aliados – esses materiais inundaram as redações dos jornais e portais pelo Brasil e creio que vocês já toparam com eles também. Sendo assim, tento dar outro enfoque para a discussão aqui.
Chegando atrasado nesse bonde, creio que a primeira coisa a fazer seja destacar a prudência com que Serra abordou o tema: «A ligação do PT é com as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas. Todo mundo sabe, têm muitas reportagens, tem muita coisa. A FARC é (sic) uma força ligada ao narcotráfico, isso não significa que o PT faça o narcotráfico». O cuidado de Serra foi isolar a primeira acusação da fala de Indio da Costa, para limpá-la das acusações de narcotráfico. Ou seja, o PT não comercializa drogas, apenas é amiguinho de quem o faz – esse é o recado polido pelo candidato à presidência. E ele tem seus motivos para se esclarecer esse ponto: afinal, indícios que ligam o PT às FARC existem, mas não ao narcotráfico (atividade que pode estar relacionada àquela organização, mas nunca vista no partido).
Não acredito que caiba a mim fazer – mais uma vez, chegando atrasado nesse bonde – o que muitos já fizeram: reunir evidências da ligação do PT com as FARC. Se você não viu nada ainda, veja o que os jornalistas Reinaldo Azevedo e João Bosco Rabello publicaram cada um em seu blog. Ainda o Coturno Noturno trouxe outras fontes e o próprio Indio da Costa disponibilizou algumas materiais a partir de sua conta do Twitter. Essas referências mostram, por exemplo, que o governo federal brasileiro emprega – a partir de documento assinado por Dilma Rousseff (PT) – a esposa de um ex-guerrilheiro das FARC.
O PT conseguiu, junto ao TSE, direito à resposta, a ser veiculada no Mobiliza PSDB, site que originalmente publicou a declaração de Indio da Costa. Anseio muito por essa resposta. Antes de mais nada, porque o PT, como quase sempre faz, já aproveitou a deixa para enfiar um pouco mais o nome de Dilma na cabeça dos Brasileiros. Como conta Denise Madueño no Estadão: «Inicialmente, o partido tinha encaminhado um texto à Justiça Eleitoral fazendo referências à campanha de Dilma, mas foi vetado pelo ministro Henrique Neves do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que concedeu o direito de resposta». Patetadas (ou seriam petetadas?) à parte, a minha pergunta – que, mesmo duvidando, espero ser respondidade pelo PT – é «por que não?».
O governo brasileiro, em sua política externa recente, flerta constantemente com políticos de extrema esquerda e com governos autoritários que defendem a revolução. Hugo Chávez – que já afirmou respeitar a política das FARC (como bem lembrou Clóvis Rossi na Folha de domingo passado) – e os irmãos Castros – que detém o poder na ilha cubana e impõe uma ditadura esquerdista que custa vidas de presos políticos até hoje– são parceiros de Lula e apoiadores de Dilma. Então, por qual motivo o PT não flertaria com as FARC? Indícios e provas materiais (aqueles que meus colegas blogueiros já levantaram) existem, mas minhas questão aqui é apenas apelo para a lógica: não vejo motivo – dada a história – de o PT negar as FARC.
Inúmeros petistas de hoje não pegaram em armas para tentar impor o regime no qual acreditavam nas décadas de 60 e 70? É o que as FARC fazem hoje. Os petistas mudaram? Mudaram. Sua simpatia por esses movimentos mudou? Não. Os novos-petistas, quando vão à Cuba, ignoram a greve de fome e a consequente morte de presos políticos. Os novos-petistas, aqueles mudados, aplaudem Hugo Chávez, que censura a imprense e que faz o papel de judiciário para espremer seus opositores. Os petistas deixaram a violência de lado? Deixaram. Os petistas deixaram de apoiar a política exercida e assegurada pela violência? Não. Ao invés disso, foram abraçar Mahmoud Ahmadinejad.
Por fim, mas ainda nessa linha, vale o argumento contrário: se o PT não tem nada contra as FARC, as FARC flertam com o PT. Em 2003, o comandante das FARC Raúl Reyes afirmou à Folha que estava «tentando estabelecer – ou restabelecer – as mesmas relações que tínhamos antes, quando ele [Lula] era apenas o candidato do PT à Presidência». A correção que Reyes faz é notável: não quer estabelecer, quer restabelecer as relações. Logo, as relações entre Lula e FARC, ao menos, já existiram. Na mesma entrevista, o comandante afirma que tem contatos no Brasil. O entrevistador questiona se ele poderia nomear os mais importantes e a resposta é firme: «Bem, o PT, e, claro, dentro do PT há uma quantidade de forças; os sem-terra, os sem-teto, os estudantes, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, historiadores, jornalistas…». O entrevistador, então, pergunta por nomes e escuta: «Emir Sader, frei Betto e muitos outros».
As FARC se interessam por qualquer aproximação com o PT, pois elas querem ganhar, cada vez mais, a condição de movimento político (e não de movimento terrorista narcotraficante). Essa entrevista com Reyes deixa claro que as bases do PT (as sindicais, sociais, intelectuais), seus líderes, além da mídia e dos movimentos sociais pró-PT, também estão ligadas às FARC. Isso em 2003. O que mudou de lá para cá? Eu poderia ser otimista e pensar que o partido da situação se afastou dessa gente. Mas os fatos, me lavam a crer que não. E é por isso que anseio ler a resposta do PT.